Um Pé de Milho

“Aconteceu que no meu quintal, em um monte de terra trazido pelo jardineiro, nasceu alguma coisa que podia ser um pé de capim – mas descobri que era um pé de milho. Transplantei-o para o exíguo canteiro na frente da casa. Secaram as pequenas folhas, pensei que fosse morrer. Mas ele reagiu. Quando estava do tamanho de um palmo, veio um amigo e declarou desdenhosamente que na verdade aquilo era capim. Quando estava com dois palmos veio outro amigo e afirmou que era cana.
Sou um ignorante, um pobre homem da cidade. Mas eu tinha razão. Ele cresceu, está com dois metros, lança as suas folhas além do muro – e é um esplêndido pé de milho. Já viu o leitor um pé de milho? Eu nunca tinha visto. Tinha visto centenas de milharais – mas é diferente. Um pé de milho sozinho, em um anteiro, espremido, junto do portão,numa esquina de rua – não é um número numa lavoura, é um ser vivo e independente. Suas raízes roxas se agarram ao chão e suas folhas longas e verdes nunca estão imóveis.
Anteontem aconteceu o que era inevitável, mas que nos encantou como se fosse inesperado: meu pé de milho pendoou. Há muitas flores belas no mundo, e a flor do meu pé de milho não será a mais linda. Mas aquele pendão firme, vertical, beijado pelo vento do mar, veio enriquecer nosso canteirinho vulgar com uma força e uma alegria que fazem bem.É alguma coisa de vivo que se afirma com ímpeto e certeza. Meu pé de milho é um belo gesto da terra. E eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever: sou um rico lavrador da Rua Júlio de Castilhos.”
(Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas, 2001. Adaptado)

Casa vazia

Descobri hoje que meu apartamento não foi alugado por ninguém. Eu o desocupei há três meses e nunca fui atrás de saber da sua situação. Na minha cabeça seria questão de semanas até alguém cair de paixão por ele e chamá-lo seu, meu ex-lar. As fotos no site de corretagem são novas, e ostentam todas as melhorias feitas por mim: pisos, rodapé, luminárias, pintura e muito amor. Eu amava viver ali. Bem da verdade, cresceram o olho nesta casca e estão pedindo muito pelo que comercialmentete vale.

Penso na visão retrógrada de um proprietário que prefere deixar por meses um imóvel vazio, a alugar logo por um preço mais baixo – já que diferença toda se recompensa com o tempo.Mas é que aí me lembro de que nenhuma visão pode ser mais retrógrada que esta de se ter como patrimônio único imóveis, em tempos de fundos fixos acessíveis a todos e mais rentáveis que a dor de cabeça de se trabalhar com inquilinos e condomínios, e fica tudo bem.

Play to Run: Sam´s Town

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Decidida a diminuir a importância das playlists de corrida e me dedicar à procura de bons álbuns que funcionem inteiros nos treinos, abro a série Play to Run por este clááássico dos primórdios da divulgação da música na internet. Bons tempos!

Tinha o palpite de que o Sam´s Town do Killers (2006) daria certo. E deu. Até porque, sempre usei duas faixas lindas dele como powersongs: ´Read my Mind´ e ´Bones`.  O disco tem cerca de quarenta e quatro minutos e se adequa perfeitamente a um curtinho com velocidade média pra alta. Selo Run to Play de aprovação!

Nota sobre as redes sociais

Quase 15 anos de nossa entrada massiva nas redes sociais e elas nunca se pareceram tão afastadas daquilo que almejamos na vida e tão antiquadas quanto agora. A  rede social com que sonhamos – como espaço de vivência e atuação – deve assemelhar-se às cidades e refletir as causas pelas quais lutamos. A rede deve conectar espaços livres (sites) assim como as ruas conectam os sítios.

Discursamos pelo fim dos condomínios e centros comerciais fechados, pela queda dos muros e grades e pela livre expressão de pensamento, mas aceitamos gerar conteúdo grátis  para uma rede que lucra com eles, te cobra para que tenham alcance e tudo o que te oferece de contrapartida é um cubículo de 12m² para morar, em ruas limitadas para circular.

Um cubículo dentro de um feudo. Censurado. Irreformável. Inexpansível. Sem janelas. Com banners de anunciantes em todas as paredes e dentro do qual, se você precisar acessar qualquer objeto de sua propriedade, conta com a mais parca ferramenta de busca. Acessar propriedades alheias, então, somente sob sua tutela.

Assim como sonhamos com uma cidade livre, segura, com espaços de moradia, trabalho e lazer acessível a todos,  devemos sonhar com uma rede honesta que nos conecte às pessoas, iniciativas e empresas segundo o nosso próprio filtro. Uma rede na qual nossos ‘perfis’ sejam nossos sites, com nossos conteúdos, nossos servidores, nossos anunciantes, nossos produtos e nossas escolhas. Seguimos sonhando, pois é da matéria de que somos feitos e seja nas cidades, seja na rede social, isto ainda é de graça.

Notas sobre dois guardanapos



Estes de Buenos Aires (2014). Que brasileiro vai à argentina pleno período de copa do mundo no Brasil? Eu mesma! Confesso que com sorte fui antes do 7×1 e o clima com os argentinos, como sempre, muito cordial. 

O Arenales descobri passando na porta. Queria jantar bem. Vi que tinha toalhas de linho e taças. Entrei. Me lembro de ter comido uma paeja muito boa. Se não me engano este restaurante cobrou na conta uma taxa pelos talheres. Não conhecia esta prática, mas depois pesquisei e soube ser algo comum. 
O guardanapo do Capriati eu guardei mais por uma questão sentimental. Ele estava ao lado do hotel na Corrientes e por ser 24h salvou a vida por diversas noites. Eu tomava sempre Guaraná Antártica pois o garçom achava que era o que eu queria por ser brasileira. Saudade.