Nota sobre as redes sociais

Quase 15 anos de nossa entrada massiva nas redes sociais e elas nunca se pareceram tão afastadas daquilo que almejamos na vida e tão antiquadas quanto agora. A  rede social com que sonhamos – como espaço de vivência e atuação – deve assemelhar-se às cidades e refletir as causas pelas quais lutamos. A rede deve conectar espaços livres (sites) assim como as ruas conectam os sítios.

Discursamos pelo fim dos condomínios e centros comerciais fechados, pela queda dos muros e grades e pela livre expressão de pensamento, mas aceitamos gerar conteúdo grátis  para uma rede que lucra com eles, te cobra para que tenham alcance e tudo o que te oferece de contrapartida é um cubículo de 12m² para morar, em ruas limitadas para circular.

Um cubículo dentro de um feudo. Censurado. Irreformável. Inexpansível. Sem janelas. Com banners de anunciantes em todas as paredes e dentro do qual, se você precisar acessar qualquer objeto de sua propriedade, conta com a mais parca ferramenta de busca. Acessar propriedades alheias, então, somente sob sua tutela.

Assim como sonhamos com uma cidade livre, segura, com espaços de moradia, trabalho e lazer acessível a todos,  devemos sonhar com uma rede honesta que nos conecte às pessoas, iniciativas e empresas segundo o nosso próprio filtro. Uma rede na qual nossos ‘perfis’ sejam nossos sites, com nossos conteúdos, nossos servidores, nossos anunciantes, nossos produtos e nossas escolhas. Seguimos sonhando, pois é da matéria de que somos feitos e seja nas cidades, seja na rede social, isto ainda é de graça.

Notas sobre dois guardanapos



Estes de Buenos Aires (2014). Que brasileiro vai à argentina pleno período de copa do mundo no Brasil? Eu mesma! Confesso que com sorte fui antes do 7×1 e o clima com os argentinos, como sempre, muito cordial. 

O Arenales descobri passando na porta. Queria jantar bem. Vi que tinha toalhas de linho e taças. Entrei. Me lembro de ter comido uma paeja muito boa. Se não me engano este restaurante cobrou na conta uma taxa pelos talheres. Não conhecia esta prática, mas depois pesquisei e soube ser algo comum. 
O guardanapo do Capriati eu guardei mais por uma questão sentimental. Ele estava ao lado do hotel na Corrientes e por ser 24h salvou a vida por diversas noites. Eu tomava sempre Guaraná Antártica pois o garçom achava que era o que eu queria por ser brasileira. Saudade. 

O Segredo do Bonzo – Machado de Assis

Notas sobre um texto que vira e mexe retorna à pauta dos meus pensamentos sobre equilíbrio do ser social que sou e o tempo de reclusão necessário ao acúmulo e processamento de informações, conhecimento, cultura.

” -Haveis de entender, começou ele, que a virtude e o saber, têm duas existências paralelas, uma no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo contacto com outros homens, é como se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se ninguém os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguém os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais enérgicas, não há espetáculo sem espectador.

Um dia, estando a cuidar nestas coisas, considerei que, para o fim de alumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos anos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existência de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo efeito, poupando tais trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.”

***e nos fones Bruce Springsteen canta 4th of july

A natureza das coisas – Flávio José

Por motivos mais competentes à indústria fonográfica e menos a mim, assisti ao filme A Máquina (2005) no cinema. Da leva de produções com a cara de João Falcão (O auto da compadecida e a Comédia da Vida Privada), a Máquina não fica a dever nada seja em adapção de roteiro, seja no resultado estético.

O elenco estrela lindamente Paulo Autran, e posso estar enganada, mas creio ser se não seu último, um de seus últimos filmes antes de sua morte. Lázaro Ramos, amor eterno desta casa e destaque para o protagonista Antônio – Gustavo Falcão, desconhecido ao menos por mim até então.

A Máquina marcou o momento de construção de uma das relações amorosas mais importantes da minha vida e esta introdução seja talvez e apenas feita para não desmerecer o filme. O filme vale o que vale, mas para mim, por isto, vale muito mais.

Hoje eu – que  por motivos adversos truquei um chat com uma canção da trilha: A Natureza das Coisas (Flávio José interpretada por Prazeres Barbosa) – cá estou a ter um dia marcado por esta bela experiência estética. Segue a letra.

Se avexe não Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada
Se avexe não
A lagarta rasteja até o dia
Em que cria asas

Se avexe não
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa
Se avexe não
Amanhã ela para na porta
Da sua casa

Se avexe não
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá

Se avexe não
Observe quem vai subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavadeira
Pra ir mais alto vai ter que suar

La Sapienza

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Dentre tantos aspectos que eu, arquiteta, poderia destacar nesta película de Eugène Green em termos de locação, percepção, promenade achitecturale, do uso da luz e do próprio espaço arquitetônico como base narrativa, quero destacar aqui só e somente só a paleta de cores do figurino. O que na verdade não é pouco.

Salvo por raríssimas exceções, todos os personagens têm suas roupas compostas de tons de marrons e/ou azuis. Confesso que nunca antes havia feito muita atenção a esta combinação de cores nas minhas próprias composições e confesso que estou de certo modo ansiosa para experimentar neste sentido nos meus looks do dia.

O resultado desta combinação de figurinos com a paisagem não é menos sublime que os demais aspectos deste filme pensado nos mais mínimos detalhes: azuis e marrons são um mimetismo telúrico-celeste das terras firmes italianas com o mar.

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